Chamada de Trabalhos - Dossiê temático "Trabalho, subjetividade e contemporaneidade"

2019-02-06

CHAMADA DE TRABALHOS


DOSSIÊ TEMÁTICO

Trabalho, subjetividade e contemporaneidade

EDITORES ESPECIAIS

Fernando de Oliveira Vieira (UFF)
Liliam Deisy Ghizoni (UFT)


O marco conceitual que se parte para a construção deste dossiê intitulado “Trabalho, Subjetividade e Contemporaneidade” se ancora essencialmente em Dejours (2004), Antunes (2000a, 2000b, 2010, 2012, 2018) e Alves (2011), considerando a ontologia do ser social construída por Lukács a partir de Marx. Acreditamos que as relações sociais, determinadas pelo modo de produção vigente (capitalista), constroem o sujeito a partir da inter-relação entre a objetividade e subjetividade dos trabalhadores assalariados. Desta forma a dimensão epistemológica adotada no dossiê parte da alienação/dominação versus emancipação dos trabalhadores.

Pontua-se que trabalhar, como afirma Dejours (2004), não é somente produzir, é também viver junto, estreitar laços de cooperação e solidariedade, construir coletivos que possam se amparar com afeto no dia a dia das relações de trabalho, que estão vez mais recrudescidas. Vivencia-se assim uma era de intensa precarização no mundo do trabalho de forma globalizada, atingindo diretamente a subjetividade dos trabalhadores. Vale ressaltar que o eixo central dos dispositivos organizacionais da contemporaneidade é a luta constante dos empregadores pela captura da subjetividade dos trabalhadores pela lógica do capital (Antunes, 2012; Alves, 2011).

Este “modelo” de inovação organizacional busca capturar não só o que o trabalhador sabe fazer, mas também o que ele sabe sobre o processo de trabalho, toda a sua disposição intelectual-afetiva acaba por ser otimizada para cooperar com a lógica capitalista (Alves, 2011). Destarte, este modus operandi tende a dilacerar não apenas os aspectos físicos do sujeito, mas também sua dimensão psíquica e espiritual, como afirma Alves (2011). Esta busca pelo inatingível traduz o que Han (2015) chamou de Sociedade do Cansaço, um contraponto a sociedade do desempenho. Pois o que temos hoje são trabalhadores se auto explorando, a ponto de viverem uma condição de estarem “exaustos, correndo e dopados”, se achando trabalhadores livres, como afirma Brum (2016).

Como pontuado por Hopfer e Faria (2006) há uma dissonância entre o ambiente prescrito e o real, entre a descrição das tarefas e a execução das mesmas. Para estes autores há um exercício de controle social, fomentando a competição e a busca por atingir as metas individualmente, quebrando todas as possibilidades de construção de laços de cooperação e solidariedade como proposto por Dejours (2000). Percebe-se uma estratégia de gestão empresarial que incentiva tais valores.

E este movimento tende a recrudescer a violência relacionada ao trabalho. Para Faria (2013) a finalidade da violência é conservar as estruturas de injustiça e opressão que a maioria exerce sobre a minoria. Este mesmo autor pontua que a violência possui uma dimensão explícita, que é direta, aquela violência dramática, reconhecida pela mídia e por todos. Mas há também uma violência oculta, que age de forma implícita, indireta e subjetiva, neste caso é a violência mascarada, invisível, é a miséria dos favelados, despossuídos, é a prostituição, é o analfabetismo.

Há que se ficar atento as formas e abusos emocionais que são incentivados de modo sorrateiro em nome da produção, por meio de mobbing, bullyng e assédio no ambiente de trabalho (Heloani; Barreto, 2018). Neste contexto há que se ficar atento as formas de dissimulações discursivas que podem encobrir as consequências das violências no trabalho, muitas vezes diagnosticando como problemas individuais, quando na verdade podem ser frutos da organização do trabalho, como é o caso da ler/dort; da dependência química; do adoecimento psicológico; do adoecimento físico; do estresse físico e emocional; do sofrimento do trabalhador (Faria, 2013).

Como visto, a dissimulação discursiva se empenha no disfarce da realidade da violência no trabalho, apresentando-a como se fosse outra coisa diferente do que de fato é. Ela tem a pretensão de assumir o lugar do sagrado, da empresa amorosa e exigente, simpática e rígida, que clama por participação, mas concentra as decisões (Faria, 2013).

Destarte falar de violência no ambiente de trabalho é algo relativamente novo, pois segundo Heloani e Barreto (2018) a primeira pessoa a abordar a violência e os efeitos dela no ambiente de trabalho foi Brodsky em 1976 nos EUA. Este autor pontuava que as condutas típicas eram: Tratar um colega de trabalho como bode expiatório; Insultar, injuriar um colega; Violências ou ofensas de ordem física; Assédio de ordem sexual; Excessiva pressão sobre o trabalhador no concerne o desempenho. Algo bastante contemporâneo, salvo os 42 anos destes escritos. Atualmente “Os atos de violência, expressam-se por atitudes abusivas em termos de gestão, as quais estão materializadas na administração por injúria, pelo medo e na gestão por estresse” (Heloani; Barreto, 2018, p. 27).

E neste cenário os autores acima mencionados pontuam uma questão nova, toda violência laboral é organizacional e não individual ou exclusiva do sujeito, como se tem afirmado. A organização tem sim sua implicação com o sofrimento e adoecimento causado aos sujeitos que sofrem violência laboral. Uma vez que é consenso internacional que todo assedio moral é acima de tudo organizacional (Heloani; Barreto, 2018).

Sabemos que “é necessário criar novas práticas e compreender que a amizade e a ajuda mútua possibilitam a resistência aos abusos e liberam forças indutoras à criatividade, potencializando a capacidade de produzir” (Heloani; Barreto, 2018, p. 186).

Diante do exposto, a metodologia adotada na maioria dos trabalhos que se propõe para este dossiê é de cunho qualitativo, que envolvem a escuta de trabalhadores que sofrem as agruras do mundo do trabalho contemporâneo, sejam eles empregados públicos, privados, que estão em busca de um trabalho ou que desistiram de procurar emprego. A premissa da maioria dos trabalhos é dar voz aos sujeitos, trazendo à tona as narrativas do que vivenciam no ato político de trabalhar.

As possibilidades para os Estudos Organizacionais centra-se na perspectiva crítica que engendra o tema “Trabalho, Subjetividade e Contemporaneidade”, que por sua vez envolve estudos que tratam de ideias e práticas de relações de trabalho, pautadas na exploração física e psicológica de trabalhadores, que atentam contra a dignidade da pessoa humana, em boa parte das vezes. Chama atenção para o papel da Administração no que tange a relação do trabalho com a subjetividade nos dias atuais, tanto para a formação, quanto para a prática de atuais e futuros gestores, sobretudo os que se envolverem no ofício de ser professor/pesquisador, na luta por uma sociedade menos desigual em direitos e oportunidades.

As linhas de contribuição convergem com os estudos organizacionais críticos, a saber:

- trabalho na contemporaneidade;
- patologias contemporâneas decorrentes do trabalhar;
- violência psicológica no trabalho;
- práticas de gestão que promovam saúde e emancipação;
- narrativas de trabalhadores em sofrimento/adoecimento no trabalho: implicações da gestão;
- trabalho análogo a escravidão.
- trabalho e adoecimento no olhar de Marx e Lacan;
- o sofrimento do universitário e suas relações com a dinâmica universitária.

Referências

Antunes, R. (2012). A nova morfologia do trabalho no Brasil: reestruturação e precariedade. Nueva Sociedad, ed.spe, 44-59.

Alves, G. (2011). Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. São Paulo: Boitempo.

Antunes, R. (2010). Anotações sobre o capitalismo recente e a reestruturação produtiva no Brasil. In: R. Antunes & M. A. M. Silva. (Orgs.). O avesso do trabalho (2a ed.) (pp. 13-24). São Paulo: Expressão popular.

Antunes, R. (2000a). Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho (7a ed.). São Paulo: Cortez; Campinas: Unicamp.

Antunes, R. (2000b). Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo.

Brum, E. (2016). Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País. Recuperado em 10 outubro, 2018, de: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html.

Dejours, C. (2004). Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, 14(3), 27-34.

Dejours, C. (2000). A banalização da injustiça social (3a ed.) Rio de Janeiro: FGV.

Faria, F. H. (2013). Dissimulações discursivas, violência no trabalho e resistência coletiva. In: A. R. C. Merlo, A. M. Mendes, & R. D. De Moraes (Orgs.). O sujeito no trabalho: entre a saúde e a patologia (pp. 119-137) Curitiba: Juruá.

Han, B. C. (2015). Sociedade do cansaço. Petropolis: Vozes.
Heloani, R. & Barreto, M. (2018). Assédio moral: gestão por humilhação. Curitiba: Juruá.

Hopfer, K. R. & Faria, J. H. (2006). Controle por resultados no local de trabalho: dissonâncias entre o prescrito e o real. RAE- eletrônica, 5(1), art. 5.

Modalidades de contribuição

Farol – Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade publica contribuições na forma de Capas, Artigos, Ensaios, Debates, Provocações, Entrevistas, Depoimentos, Resenhas (de livros, filmes, exposições, performances artísticas), Registros fotográficos e Vídeos. Os idiomas aceitos nas contribuições são português, inglês e espanhol, desde que estejam de acordo com a política editorial e as diretrizes para os autores. Para ter acesso às orientações gerais, acesse: http://revistas.face.ufmg.br/index.php/farol/about/submissions#onlineSubmissions.


Submissão

Qualquer que seja a modalidade de contribuição (Capas, Artigos, Ensaios, Debates, Provocações, Entrevistas, Depoimentos, Resenhas, Registros fotográficos ou Vídeos), xs autorxs devem informar o editor, no item “Comentários para o editor”, que estão submetendo especificamente para o dossiê temático “Trabalho, subjetividade e contemporaneidade”.


Prazo

As contribuições para o dossiê temático “Trabalho, subjetividade e contemporaneidade” se encerram impreterivelmente no dia 20 de maio de 2019 (segunda-feira).


Informações adicionais

No caso de quaisquer dúvidas sobre este número especial, os editores especiais devem ser contactades: Prof. Dr. Fernando de Oliveira Vieira (prof.fernandovieira@gmail.com) ou Profa. Dra. Liliam Deisy Ghizoni (ldghizoni@gmail.com). No caso de dúvidas sobre o periódico em si, o contato deve ser feito com a secretaria editorial (farol@face.ufmg.br).


Prof. Luiz Alex Silva Saraiva, Dr.
Editor-chefe
Farol – Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade
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